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La Trappe Quadrupel Oak Aged

Neste post contei nossa visita à abadia que produz a La Trappe, única cerveja trapista produzida fora da Bélgica. No final mencionei que havíamos comprado uma garrafa da La Trappe Quadrupel Oak Aged, que iria merecer um post só para ela. Pois bem, chegou o momento 🙂

A Oak Aged no meio da “família” La Trappe

Vamos começar do começo: o que é esta tal de Quadrupel Oak Aged? É a cerveja mais forte produzida pela La Trappe – na minha opinião uma das melhores cervejas que você pode beber – envelhecida em barris de carvalho, como se faz com vinho. O detalhe mais curioso é que a Brouwerij de Koningshoeven lista em seu site que tipo de barrica foi usada em cada lote – que vem gravado no rótulo da garrafa. Assim, você pode descobrir que a cerveja que repousa tranquilamente em sua garrafa passou por barricas antes usadas para envelhecer vinho do porto ou whisky.

Minha garrafinha era do lote 5 – que usou barricas novas de carvalho e barricas de carvalho usadas na produção de vinho branco. Nada de tampinha de metal – no seu lugar, uma rolha como as das garrafas de espumante, que saltou do gargalo com um estampido. No copo já é muito claro que a cerveja é totalmente diferente de uma Quadrupel comum: esta tinha uma cor marrom “queimada”, bastante densa e turva. No aroma, mais diferenças: impossível não associar os aromas desta cerveja com os aromas de vinho, especialmente baunilha. Curiosamente, este aroma era ainda mais marcante do que lembro em qualquer outro vinho que tenha bebido. Um gole basta para confiar a transformação causada pelas barricas: não acredito que alguém a associaria com a Quadrupel normal – esta é muito mais adocicada (mais baunilha), com uma sensação “quente” mais típica de um vinho e com um retrogosto marcante e persistente. Tão marcante que ele parece “pesar” um pouco mais a cada gole – ainda bem que a Fê estava junto para dividir o “fardo” de beber esta cerveja tão diferente 🙂

Acho que este é para mim o maior ponto negativo da cerveja: apesar de ser única, saborosa e completamente diferente da cerveja original, não é exatamente uma cerveja que eu beberia com o mesmo prazer até a última gota. Se colocarmos na equação o custo-benefício, não penso duas vezes para escolher a Quadrupel normal. Mas sem dúvida valeu muito a pena experimentá-la – afinal, quantas cervejas você conhece flertam tanto com o processo de produção de vinhos quanto esta?

Talvez não com o de vinhos, mas a cerveja para nossa próxima experiência “cervejística” – a DeuS – adota parte do processo de fabricação do champanhe e é servida em flutes. Hesitei muuuuito para comprar esta danada, mas quando descobri que ela é produzida pela mesma cervejaria que produz outra das minhas favoritas – a Tripel Karmeliet – resolvi que ela merecia uma chance. Assunto para outro post 🙂

Abadia combina com cerveja

Domingo passado aproveitamos o belo dia de sol depois do Queen’s Day (assunto para outro post!) e resolvemos visitar a abadia O.L.V. Koningshoeven. Esta é a única abadia na Holanda que produz cervejas trapistas – sob o rótulo La Trappe – e, para nossa sorte, fica a apenas 30 minutos  do nosso apartamento. Bem diferente da longa viagem que enfrentamos até chegar à Westvleteren (que contei neste post).

A abadia e o “Tasting Room” (devem ter achado uma má ideia chamá-lo de “bar”, estando dentro de uma abadia…) anexo são muito bonitos e deu para perceber que muita gente que estava lá mora pelas redondezas e aproveita o lugar para comer alguma coisa ou passar algumas horas com a família. E nossos lanches estavam bem saborosos – eu comi um sanduíche pretensamente italiano e a Fê uma salada de atum, ambos com pães produzidos na própria abadia.

Mas eu estava interessado mesmo é na cerveja, até porque é da La Trappe uma das minhas favoritas, a Quadrupel. Aguçava ainda mais a minha curiosidade o fato da abadia produzir muitas cervejas – nada menos do que 8 tipos em produção regular, quando a “tradição” das cervejarias trapistas é produzir 3 tipos e às vezes mais uma cerveja mais leve consumida pelos próprios monges.

E dá para entender o porquê de tantos tipos quando você está lá: tudo, tudo mesmo, é claramente organizado como um negócio. Depois descobri que a cervejaria da abadia é uma subsidiária de uma grande cervejaria holandesa (a Bavaria, não a Heineken J) e que, exatamente por isto, eles perderam o direito de usar o logo Authentic Trappist Product por 6 anos, até que os monges re-assumiram o controle de forma mais ativa. Isto também deve explicar porque ela é a maior em termos de volume produzido, embora a Chimay e a Westmalle não estejam muito atrás.

Voltando para a cerveja, eu estava especialmente curioso para experimentar aquelas que não dá para encontrar no supermercado. Curiosamente, são as mais leves: a Blond, a Witte, a Puur e a Bock (talvez esta se encontre no inverno, vamos ver no final do ano). A boa notícia: nenhuma delas desaponta. A má notícia: para o meu gosto, elas não são as melhores produzidas pela La Trappe, então não adicionaram muito.

Mas justiça seja feita: tanto a Blond quanto a Puur (seria esta a única cerveja ecologicamente correta do mundo?) são muito boas. São leves, mas tem estrutura e sabor – não lembram em nada aquelas pilsen praticamente iguais umas às outras. A Witte me surpreendeu –esta manteve a sensação refrescante que todas as white beers tem e minimizou o que não me agrada, a sensação de um sabor meio azedo no retrogosto que simplesmente detesto. Só a Bock me pareceu um pouco pesada e enjoativa, mas tenho que experimentá-la de novo no inverno, não em um dia quente e ensolarado.

A Quadrupel continua sendo minha favorita, disparada. Com uma fermentação que continua após ser engarrafada, cor âmbar densa, encorpada, com um toque adocicado muito leve, cheia de sabor, é muito diferente de outras trapistas. A Isid’or é a segunda na lista, com sua cor um pouco mais avermelhada e sabor um tanto mais adocicado. O interessante é que esta é produzida com um lúpulo cultivado no local. Por fim, a Dubbel e a Tripel também são muito boas, mas ficam ofuscadas diante das primeiras – sem contar que eu prefiro estes tipos de outras abadias, como a Rochefort ou a Westmalle.

O passeio meio-que-guiado na cervejaria também foi interessante. Meio-que-guiado porque estávamos com um grupo de holandeses, então o guia não podia fazer o tour em inglês. Mas nos deu uma “apostila” que explicava tudo o que ele contava, então deu para aproveitar. E o guia estava sempre querendo saber se a gente tinha perguntas, muito simpático. Na verdade, foi meio estranho conhecê-la por dentro; apesar do processo de fermentação ser todo informatizado, o local onde a cerveja é produzida parece muito simples, quase artesanal. Só a linha de engarrafamento tem uma cara mais moderna. Apesar desta cara “artesanal”, a quantidade de pallets com garrafas vazias indicava que os monges não estão lá para brincadeira e levam a produção da La Trappe muito a sério. Só espero que nunca haja um incêndio lá, porque não tinha jeito do caminhão de bombeiros sair de onde estava 😀

Estava quase esquecendo: eles também envelhecem a Quadrupel em barricas por 12 meses, para depois engarrafá-la em uma garrafa diferenciada. Você até consegue saber que tipo de barrica foi usada em cada lote, pois elas vão alterar o sabor da cerveja de forma diferente. Esta Quadrupel Oak Aged só está à  venda na própria abadia e é claro que não pude deixar de comprar uma garrafa (a 10 euros!!!), que está guardadinha na geladeira esperando o momento de ser degustada. Mas esta vai merecer um post dedicado só a ela 🙂

Afinal, quem tem as melhores cervejas?

Já sei que este será um post polêmico; já vi gente defendendo apaixonadamente as cervejas alemãs, outros as cervejas belgas e correndo por fora estão as cervejas holandesas, inglesas e tchecas. Agora que visitamos os cinco países, acho que posso tentar ser um pouco objetivo em relação a este assunto. No final deixarei a neutralidade de lado e vou indicar minhas preferidas.

Berliner Kindl, uma das muitas boas pilsen alemãs

Mas antes de mais nada, esta é uma avaliação um pouco injusta. Afinal, depois de 1 ano na Bélgica tive a chance de experimentar muito mais cervejas belgas do que alemãs, tchecas ou inglesas. E só visitamos Amsterdam, Londres, Berlin e Praga, onde todos os restaurantes têm uma lista mais ou menos igual (e curta!), o que nos tira a chance de provar cervejas mais locais, ou de produtores menores. Mas esta é uma verdade relativa, porque mesmo em Bruxelas você vai achar uma variedade enorme de cervejas em muitos restaurantes.

A cerveja, em comemoração aos 10 anos do Tate Modern, era boa, mas a vista era melhor

E comparar estas cervejas é meio como querer comparar maçãs, bananas e peras. As cervejas alemãs e tchecas são mais ou menos homogêneas – muitas pilsen, leves, teor alcoólico moderado e no geral saborosas. As inglesas são mais encorpadas, apresentam maior variedade e algumas são mais alcoólicas. As belgas tem uma variedade absurda – mesmo dentro de uma mesma “categoria”, como as trapistas ou as de abadia, você vai encontrar muita diversidade de sabor, teor alcoólico e corpo. Quando você acha as boas cervejas holandesas elas se parecem um pouco com as belgas – e é holandesa uma das melhores que já tomei, a La Trappe Quadrupel.

Bernard, a cerveja tcheca que mais gostamos (aqui a clara, mas também experimentamos a escura)

E tem algumas leis malucas definindo o que é cerveja… Especialmente na Alemanha, há uma lista sem fim de critérios que tem que ser atendidos para chamar uma cerveja de cerveja e isto é usado tanto para marketing como para barrar as cervejas de outros países.  Enquanto isso, na Bélgica eles estão produzindo cerveja usando receitas e métodos que existem há séculos ao mesmo tempo em que experimentam novas receitas, métodos e processos. Estava lendo um post no blog Cycling Beer beercycling em que o autor dizia que qualquer forma de produzir cerveja que você possa imaginar provavelmente já foi experimentada por um belga 😀 E deve ser verdade mesmo, porque uma das minhas colegas belgas estava me contado que uma pequena cervejaria próxima de onde ela mora resolveu produzir um pequeno lote de cervejas usando o mesmo método usado para produzir champanhe – e ela teve a sorte de conseguir comprar uma garrafa (caríssima, aliás) para experimentar.

Os tchecos também tem sua cerveja de abadia, mas o gosto era algo estranho e nem acabamos com esta garrafinha…

Talvez esta seja uma diferença importante – cerveja na Bélgica é uma experiência, dos diferentes sabores, aromas e texturas. Na Alemanha você irá beber boa cerveja – mas todas meio parecidas e em grandes quantidades (alguns guias indicam onde você encontra uma “legítima” caneca de 1 litro, pode?). A República Tcheca e a Inglaterra vão numa balada parecida, enquanto a Holanda fica num meio termo – você verá muita gente bebendo Amstel mas, se procurar, vai encontrar cervejas muito mais interessantes.

Rochefort e Leuvense Tripel, duas das melhores belgas que experimentamos

Pessoalmente, prefiro a chance de experimentar a variedade das cervejas belgas. Tanto que foi impossível definir uma favorita; eu tenho uma lista e escolho de acordo com a minha vontade no dia. Em seguida vêm as holandesas, por uma La Trappe de vantagem e depois delas as inglesas, graças à Guinness, porters e red ales. Em penúltimo estão as tchecas, porque foram eles que aprimoraram a pilsen e tem uma das melhores, a Pilsner Urquell (esta vale muito a pena experimentar). Por fim, as alemãs. Afinal, se uma das melhores que tem a mostrar é a Erdinger, elas não podiam estar em primeiro, certo? E olha que eu gosto bastante da Erdinger 😛

Dando um tempo nas cervejas belgas

É claro que imaginei aproveitar nossa viagem para Amsterdam para experimentar algumas cervejas holandesas. Quando comentei com meu colega de classe holandês que foi difícil achar boas cervejas holandesas em Amsterdam, sua resposta não poderia ser mais autêntica: “É, eu imagino.”

Pode parecer incrível, mas não foi fácil achar boas cervejas holandesas na – surpresa! – Holanda. Não que eles não tenham boa cerveja, o problema é que a Heineken domina completamente o mercado; e se juntarmos a Grolsch e a Amstel, não sobra quase nada. O pior é que todas estas são pale lager – muito parecidas entre si (embora eu tenha achado a Heineken bem melhor do que a que temos no Brasil). Mas o mais engraçado é que em vários bares ou restaurantes as melhores cervejas eram belgas ou alemãs… A União Européia explica isto (embora países como a Alemanha tenham criado todo tipo de lei maluca para definir o que é uma cerveja “pura” como artifício para resguardar as cervejarias nacionais).

Então tive que ficar atento às oportunidades. Em um bar que, segundo nosso guia, “tinha todo tipo de cerveja holandesa”, nos deparamos com 3 cervejas holandesas e mais uma pequena relação de cervejas belgas. Meio contra a vontade acabei pedindo uma Wieckse Witte, a terceira tentativa com uma witbier. Digamos que continuo com a mesma opinião… Sugiro que você experimente qualquer uma só pra dizer que experimentou, e mude para algo melhor. Em outro restaurante pude pedir uma Dommelsch; esta é diferente, é uma pilsener com uma cor bem mais acobreada do que esperaria, mas a expectativa criada pela cor (de uma cerveja mais forte e encorpada) vai pelos ares no primeiro gole. É uma boa cerveja, mas nada, nada demais.

latrappeMas a Fernanda tinha descoberto em um blog um bar (t’Arendsnest) que seria “o bar” para experimentar cervejas belgas. Tivemos que andar um pouco para chegar lá – novidade – mas quando chegamos tudo valeu a pena! Eles tem 30 cervejas na pressão e outras 100 em garrafa, todas holandesas. Foi uma dificuldade escolher, mas no final a lógica venceu: La Trappe Quadrupel, da única cervejaria trapista fora da Bélgica. Tudo o que eu espero em uma cerveja deste tipo :): uma cerveja encorpada e forte, com um sabor muito diferente – elas não são amargas mas tem um sabor forte, muito, muito redondo. Algumas – como esta – também aparentam ter uma ligeira doçura. Depois dela a escolha ficou difícil; o cardápio com uma breve descrição de cada cerveja ajudou e pedimos uma Czaar Peter.  Esta foi uma surpresa: bem no estilo da Guinness, talvez um pouco mais leve, mas com um sabor tostado bem característico (uma delícia!). A empresa que a produz quer promover a produção de cervejas “alternativas”; segundo eles, cervejas que usam ingredientes ou métodos pouco usuais na Holanda. A Czaar Peter seria uma Russian Imperial Stout, o tipo de cerveja produzido em Londres no Séc. XVIII para ser exportado para a corte de Catarina II (uau, cerveja também é cultura…).

Agora a situação é a seguinte: já experimentei pelo menos uma cerveja de 5 das 7 cervejarias trapistas :). O pessoal do MBA está organizando uma viagem para a Westvleteren, a mais exclusiva de todas – e também considerada a melhor cerveja do mundo. Esta promete!

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