Reflexões sobre a China – parte 6

Como vocês devem ter percebido, nossa viagem para a China foi realmente uma ótima experiência; sem dúvida cansativa, mas muito, muito interessante e divertida. Mas não estávamos lá para passear, mas sim para estudar. E como comentei no primeiro post, a carga de trabalho não foi pequena – palestras, visitas a empresas, visitas culturais e um projeto (relatório mais apresentação) para concluir antes de embarcarmos no avião que nos traria de volta para a Europa.

Mas nada se compara a testemunhar em primeira mão duas coisas muito distintas, mas ao mesmo tempo inseparáveis. Primeiro, como a cultura chinesa influencia o comportamento de seu povo e sua forma de enxergar seu papel no mundo. Segundo, como pessoas de outras culturas se relacionam com isto. Confesso que a segunda foi algo inesperado para mim – antes da viagem eu estava concentrado em entender um pouco melhor o que acontece na China e como é o mundo dos negócios por ali. Porém, observar a forma como as pessoas – do meu grupo! – reagiram a este ambiente completamente estranho para muitos deles também foi uma oportunidade valiosa. Para não deixar ainda mais longo um post já exageradamente comprido, tentarei sintetizar ao máximo minhas observações.

Antes de entrar em detalhes, acho que algumas informações dos nossos palestrantes nos ajudam a entender melhor a China. Apesar de ter uma história muito antiga, sua história de abertura não tem mais de 60 anos. Sua história recente também é turbulenta: sofreu com a ocupação estrangeira, passou pela Revolução Cultural e depois pela abertura econômica iniciada por Deng Xiao Ping. O Confucionismo exerce uma influência poderosa, com seu foco no aspecto humano e crença em uma sociedade harmoniosa. A cultura do país é complexa e cheia de nuances – especialmente difícil para meus colegas vindos de países de cultura de baixo contexto, como EUA, Reino Unido e norte da Europa no geral. E a complexidade não pára por aí – enorme diversidade geográfica, enorme diversidade econômica, um governo complexo, um sistema econômico mais complexo ainda. Um palestrante colocou tudo no contexto certo: “Não sei se é um sistema melhor do que o capitalista. Mas que é um sistema impressionante, ah, isto é!”.

O fato é que você vê as pessoas dando o melhor de si, realmente se esforçando para atender da melhor forma possível seus clientes. Isto é claro em todo lugar: no bar / restaurante em que o garçom / garçonete se esforça para te entender mesmo sem falar inglês (mais: quando eles percebem que você está indo mais de uma vez, procuram aprender algumas palavras que ajudarão a “conversa”); nos alfaiates que fazem ternos sob medida que foram no hotel para que as pessoas fizessem a prova – sábado e domingo à noite; no pessoal de apoio da universidade que trabalhou muito para que tudo funcionasse como um relógio durante nossa estadia lá; nos representantes das empresas que visitamos, que invariavelmente nos receberam com atenção, cortesia e empenho. Nossos colegas chineses também não fizeram por menos – foi impressionante a dedicação da Yanan, do Dong e do Jiuzhou durante as duas semanas, dando atenção a quase 100 pessoas, nos levando para visitar os locais que mais gostavam, ajudando as pessoas a negociar com vendedores ou a fechar as passagens / hotéis que precisavam para suas viagens após as 2 semanas de curso. Um colega belga resumiu bem: “Eles não se aborrecem se algo sai errado, seguem em frente, continuam trabalhando. Na Bélgica, se algo sai errado todo mundo começa a reclamar…”. Esta é uma das memórias mais marcantes que tenho: as pessoas estão lá para dar o que tem de melhor, para aprender, para se desenvolver, sem medo de errar ou do que os outros vão pensar. Uma diferença enorme do que vemos em alguns outros países…

Hierarquia também faz parte do confucionismo, e a sociedade chinesa é sim bastante hierárquica. Mas há um detalhe interessante. Quanto mais alta sua posição, maior sua responsabilidade e melhor – como pessoa – você deve ser. E isto definitivamente parece guiar os altos governantes chineses: a clara impressão que tive é que eles estão comprometidos em fazer com que o país avance e seu povo viva melhor. Sem contar que eles não olham para a próxima eleição. Uma das nossas visitas foi em um parque tecnológico. Um dos gestores do parque disse que iria demorar talvez mais de uma geração para atingir seus objetivos, mas que eles estavam no caminho certo. Quantos governos você conhece que seguem um planejamento de tão longo prazo? É lógico que existe um componente de manutenção do status quo: a China simplesmente tem que crescer para que a qualidade de vida melhore e as pessoas estejam felizes com o governo. Enquanto a equação “bater”, a harmonia estará presente. Se a conta não “fechar”, provavelmente começará a surgir uma certa tensão social. E, com 1,4 bilhão de habitantes, qualquer governo teria medo deste cenário.

Vendo a dedicação das pessoas e o comprometimento do governo com o futuro do país, é difícil não desejar que o Brasil fosse um pouco mais como a China. Recentemente meu colega holandês começou uma discussão sobre o real valor [do modelo ocidental] da democracia. Nada mais natural depois do que vimos…

É claro que nem tudo é belo e a China enfrenta desafios e problemas tão grandes quanto o próprio país. Um desafio é avançar a economia para o Oeste, saindo das áreas costeiras. Isto deve aliviar as restrições à mobilidade que existem para as pessoas que vivem nas áreas rurais. A inigualdade está aumentando e a diferença entre pobres e ricos já está em um patamar bastante alto. Sexismo ainda existe e a política de uma criança por casal resulta no infanticídio de meninas – tanto que a população não é tão balanceada quanto em outros países. Um dos palestrantes enfatizou que não dá para confiar nas estatísticas do país. Existe corrupção – especialmente nos níveis mais baixos do governo – apesar da punição severa: pena capital (se valesse o mesmo no Brasil, a população de Brasília iria diminuir consideravelmente…). Poluição é um problema e muitos dos meus colegas reclamaram disto, especialmente em Beijing (mas acho que os paulistanos estão vacinados contra isto, porque confesso que não senti muita diferença…). Algumas cidades já enfrentam um problema de falta de água e isto certamente irá piorar no futuro. A economia do país é movida por investimentos e será um enorme desafio tornar a fatia do consumo mais importante na geração do PIB. Existe “censura” sim – alguns tópicos são considerados sensíveis e os meios de comunicação não podem tocar neles. Mas fora destes tópicos, há muita “liberdade”, inclusive para criticar membros do governo (desde que não pertençam à cúpula, é claro…). O China Daily, por exemplo, não é um típico jornal chapa-branca; você encontrará nele críticas e comentários próximos dos da imprensa ocidental. Por exemplo, li uma crítica a respeito da reduzida vida útil dos imóveis na China (25-30 anos) quando comparados com os na Europa/EUA (50-60 anos) e de todo o detrito que eles geram ao serem demolidos. Mas os jornais não podem nem pensar em mobilizar as pessoas, OK? Outros exemplos: nada de Facebook no país (mas eles tem suas próprias redes sociais) e também nada de WordPress – mandei os posts (de 1 a 4) por email para a Fê, que os publicou 🙂 O trânsito é terrível – até porque as pessoas dirigem mal – e nem todos são bem-educados.

O fato é que existe um gap entre como nós percebemos a China, como eles se percebem e como as coisas ocorrem lá. E é difícil destrinchar estes elementos. O caso da Google é um bom exemplo: eles nunca chegaram perto da liderança e seu modelo de receita parece não ser o mais adequado para o mercado chinês. Então podemos nos perguntar se o embate com o governo chinês a respeito dos resultados de buscas na Internet foi o motivo real de sua decisão de deixar o país ou apenas uma saída estratégica, com o bônus de uma imagem de bom-moço lutando contra o grande e controlador Governo. Aliás, eles estão saindo de Beijing e indo para Hong Kong…

Mas é impossível duvidar que a China ainda vai evoluir muito – e sua importância relativa no mapa geopolítico mundial sem dúvida continuará a aumentar. Segundo um palestrante, a China esteve na vanguarda da inovação e da economia mundiais por vários séculos – e agora está tentando retomar sua “posição de direito”.

Ufa! Fim do post mais longo da história do Cacau com Lúpulo :). Prometo que o próximo será sobre um assunto bem mais leve.

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